Por Edvaldo de Almeida
A recente decisão sobre a retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas no estado do Piauí suscitou um debate mais amplo. Segundo os defensores dos símbolos, estavam em conflito duas garantias constitucionais: a laicidade estatal e a
liberdade de culto.
No meu entender não existe tal conflito, e suscitar esse tema é apenas uma estratégia para desviar a atenção do real problema, que é a imposição da fé nos ambientes públicos.
A liberdade religiosa é a garantia de que você não será forçado a abjurar de sua fé e nem prejudicado nos seus negócios públicos em função dela. Somos defensores desse princípio, pois a garantia de liberdade religiosa vale também para nós ateus. Ela protege o nosso direito de não crer, garantindo que não podemos ser discriminados ou prejudicados pela nossa descrença.
Por sua vez, a laicidade estatal é o suporte para a garantia de liberdade religiosa. É só através de um Estado completamente laico que a liberdade religiosa pode ser
plenamente atingida. De fato, esse princípio é essencial para os religiosos. Sempre que algum religioso o questiona, eu pergunto: “E se fosse outra religião, diferente da sua, a controlar os negócios do Estado, como ficaria a sua posição?”
Não há nenhum conflito entre essas garantias constitucionais. Ao contrário, elas são complementares, reforçando-se mutuamente.
O único conflito acontece porque os religiosos não conseguem separar as esferas do público e do privado. Eles são tão livres para crer quanto nós ateus o somos para descrer, mas em privado, sem que isso signifique que possuem o direito de impor suas crenças aos demais. Mas as religiões desejam impor suas crenças a todas as pessoas, e por isso desejam manter seus símbolos nos lugares públicos, numa afiamação de
que “dominam” ou “controlam” esses lugares.
Se desejam adorar ou venerar seus símbolos, que o façam de forma privada. Para isso são completamente livres. E nós lutaremos para defender esse direito, contra qualquer religião que deseje suprimir as demais. Faremos isso não em defesa de uma religião específica, mas na defesa da liberdade, o que inclui a nossa liberdade de não-crença.
Um dos argumentos usados durante o debate sobre a decisão do Piauí foi que se desejarmos retirar todos os símbolos, teremos de explodir o Cristo Redentor no
Rio, mudar o nome da cidade de São Paulo e tomar outras atitudes do gênero. Mais um argumento falacioso, destinado a subverter o debate e desviar a atenção do ponto principal.
Nenhum ateu sensato sente-se mal apenas por estar em São Paulo e saber que o nome dessa cidade homenageia um santo católico. Mas qualquer ateu sentir-se-ia mal se soubesse que para fazer negócios em São Paulo precisaria negar seu ateísmo e converter-se ao catolicismo. Quando eu chego em um tribunal e vejo na parede um símbolo religioso, sinto-me mal. Temo que a minha causa ali tramitando tenha seu resultado influenciado pelo fato de eu ser ateu. Aliás, protestantes, umbandistas, budistas,testemunhas-de-jeová, seicho-no-ies e outras correntes religiosas não-católicas podem também sentir esse medo, esse desconforto, e isso por si só é um bom motivo para que os tais símbolos sejam removidos.
Em muitos países do mundo os religiosos usam o argumento do multiculturalismo para justificar as ações mais absurdas, como a mutilação genital das meninas africanas. Segundo eles, aquilo faz parte da cultura deles e portanto não pode ser criticado, já que os antropólogos afirmam que uma cultura não é superior às demais, mas
apenas diferente.
É hora de usarmos o mesmo argumento nessa questão dos símbolos religiosos. Já que nenhuma cultura é superior às demais, então nenhuma cultura religiosa é superior às demais, não havendo portanto razão para que uma delas seja representada nos órgãos
públicos enquanto as demais são negligenciadas.
Se houver um crucifixo em cada sala de repartição pública, será justo que haja
também uma imagem de cada um dos deuses da umbanda, de cada um dos deuses hindus (e eles são milhares), e assim por diante. Cada sala seria portanto transformada em uma verdadeira loja de imagens, e ficaria tão abarrotada que nela não se poderia trabalhar. Mas qualquer pessoa que ali entrasse poderia exercitar sua liberdade religiosa e adorar seu próprio deus.
Será que isso faz sentido para alguém? Claro que não, mas pelo menos faz mais sentido do que impor os símbolos de uma única fé, em detrimento das demais.
Caso isso venha aacontecer, nós ateus iremos requisitar que um dos cantos da prateleira das imagens fique vazio, sem nada, para representar aquilo que nós
sabemos: não há deus algum.
Fonte: www.sociedadeantireligiao.com
Domingo, 5 de Julho de 2009
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
DAWKINS NA FLIP

ÚLTIMO SEGUNDO, 02/07/09
Richard Dawkins alerta para o "milagre" da vida no palco da Flip
PARATY – Ao invés de protestos, aplausos. Na ponta da língua, frases de efeito como "aproveite sua vida, ela é uma só". Foi assim, munido de um sorriso largo e argumentos claros, que o biólogo britânico Richard Dawkins conquistou o público da Tenda dos Autores, na última palestra desta quinta-feira (02), apresentada pelo curador Flávio Moura como um "momento histórico". Além de citar com frequência o bicentenário de Charles Darwin e os 150 anos de “A Origem das Espécies”, o cientista, como não podia deixar de ser, abordou também o nome da mesa, batizada como “Deus, um delírio” em razão de seu best-seller, que busca refutar a necessidade e o suposto bem imposto pela religião.
Em sua cruzada contra Deus – o livro já foi publicado em 31 países –, Dawkins varreu o mundo, mas, ao contrário do que se poderia esperar, encontrou, segundo ele, mais apoiadores do que detratores, que, claro, também existem aos montes. “Viajei muito pelos Estados Unidos
divulgando o livro, inclusive pelo chamado ‘cinturão da bíblia’, e encontrei plateias enormes, entusiasmadas. Há muitos ateus no ‘armário’, que não sabem o que fazer. Em Oklahoma, três mil pessoas olharam ao redor e perceberam que não estavam sozinhas.”
Sem adotar o tom virulento que eventualmente permeia o livro, Dawkins não foi agressivo em nenhum instante contra a religião, optando pelo humor. “Uma vez, quando participava de um programa de rádio norte-americano, um ouvinte ligou afirmando que se ele não tivesse
medo de Deus, mataria seu vizinho”, afirmou, lembrando a alegada exigência moral da existência divina. “Bem, eu não levo isso a sério. Como se quando Moisés tivesse vindo com os 10 mandamentos da montanha, o povo dissesse: ‘Hmm, não matarás. Olha, até que é uma boa ideia’.”
Respondendo a perguntas do jornalista Silio Boccanera, que teve excelente desempenho no palco, o biólogo ainda defendeu o pecado moral que é doutrinar uma criança. Para Dawkins, que escreveu uma carta aberta sobre isso à filha quando ela tinha 10 anos, é preciso crescer
para decidir e estimular o pensamento crítico. No texto, o cientista argumenta que a única boa razão para acreditar em alguma coisa são evidências. “Não existe criança islâmica, protestante ou católica, mas sim uma criança com pais católicos, por exemplo.”
Um tema que especialmente tira Dawkins do sério é o criacionismo, teoria bíblica de que o mundo foi criado em seis dias, há seis mil anos (no lugar da estimativa de 4,6 bilhões), e que ainda é ensinada como verdade em algumas escolas. “Antropólogos dariam milhares de
histórias de origem do mundo, recheadas com beleza poética muito maior do que a da bíblia. Ensinar algo assim é monstruosamente errado.” Mesmo assim, defendeu a validade da leitura da bíblia, como um modo de aprender história e aprender a origem de algumas expressões. “A bíblia é uma ótima literatura, assim com as lendas dos deuses gregos, elementos de nossa história cultural.”
Com relação à influência de Darwin na política e na sociedade, disse que é uma interpretação equivocada da teoria da seleção natural, segundo a qual os fortes devem vencer os fracos, sem qualquer piedade. Para Dawkins, é preciso aprender o darwinismo para evitar aplicá-lo em
nossa vida. “Nós vamos contra a natureza, o que torna nossa espécie única. Nossos cérebros ficaram tão grandes que somos capazes de nos rebelar de nossa herança genética”, garantiu.
Em uma conversa que ainda debateu a origem da consciência e a contínua evolução do homem, o biólogo explicou que, na ausência de Deus, do ponto de vista científico o sentido da vida é a propagação do DNA. Por outro lado, disse que cada um cria seus próprios objetivos, seja
compor uma música, jogar futebol ou cuidar bem dos filhos. “Se analisarmos as probabilidades, das chances de certo espermatozóide entrar em determinado óvulo e assim por diante, é incrível que estejamos aqui. Isso que faz nossa vida ser tão valorizada. Não a desperdice, ela é a única que você vai ter”, disse, enfático, aclamado pelo público.
Provocado se tinha medo da morte, Dawkins deu o troco afirmando que não tinha interesse em chegar ao processo de morrer, já que, ao contrário de nossos animais de estimação, não teria o direito de “ir ao veterinário e tomar uma injeção indolor” para acabar com seu sofrimento. Mesmo assim, disse que ficaria desapontado de não poder continuar amando a vida. E se, no fim das contas, ele encontrasse Deus do outro lado, o que perguntaria? “Provavelmente ‘qual deus é você?’ e em seguida algo como já afirmou Bertrand Russel: ‘não há evidências suficientes, Deus’.”
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/flip/2009/07/02/richard+dawkins+alerta+para+o+milagre+da+vida+no+palco+da+flip+7086920.html
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02/07 - 15:05 - Marco Tomazzoni, enviado a Paraty
"A ciência daqui a 500 anos vai parecer tão incrível quanto a religião é hoje", diz Dawkins
PARATY – De camisa listrada e ar simpático, nem parece que o biólogo britânico Richard Dawkins é temido, amado e odiado por muitos na mesma escala. Nascido no Quênia, ateu, o principal evolucionista em atividade no mundo veio a Paraty para participar hoje à noite da mesa “Deus, Um Delírio”, mesmo nome de seu best-seller homônimo, mas também para comemorar os 150 anos de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, do qual é arauto em primeiro lugar. De qualquer forma, qualquer menção a ele é sempre pretexto para atacar a religião, assunto que o diverte e apaixona.
Em coletiva de imprensa na manhã desta quinta-feira (02), Dawkins defendeu mais uma vez sua declaração de que “A Origem das Espécies” é a obra mais importante da história. “É o livro mais importante já escrito porque explica como e por que nós existimos, que costumava ser o grande mistério da vida. Ele não é tão reconhecido por, em maior parte, ignorância ou falta de curiosidade. E a religião fornece uma falsa ideia de por que existimos, aceita em especial por pessoas ingênuas”, atacou.
Autor de obras como “O Gene Egoísta” e “O Relojoeiro Cego”, Dawkins lança na Flip “A Grande História da Evolução – Na Trilha dos Nossos Ancestrais”, de 2004. A respeito de “Deus, Um Delírio”, defendeu que é um livro “engraçado”, muitas vezes criticado como agressivo ou arrogante. “Fomos educados para achar errado atacar a religião, mas no geral adota um estilo gentil”, defendeu.
Como faz sempre que pode, Dawkins rebateu a alegada necessidade que o homem tem de que Deus exista. “Bem, eu não preciso disso, e muitos de vocês provavelmente também não. Acho, mais uma vez, que é uma questão de educação. Se você soubesse sobre a evolução, poderia cair de joelhos não para louvar a Deus e agradecer a natureza, mas por se deliciar com a maravilha de entender as coisas como elas são.”
O biólogo ainda contestou a ideia de que é possível para religião e ciência conviverem juntas. Enfático, disse que cientistas como Albert Einstein, que pretensamente acreditava em Deus – é sua a célebre frase “Deus não joga dados com o universo” –, na verdade usava essa denominação para se referir aos “mistérios dos cosmos”, que nunca conseguiria descobrir. Também alegou que apenas 10% da comunidade científica britânica e norte-americana assume ser religiosa, formada em geral por pessoas que dividem o cérebro em duas partes, uma para a crença, outra para o trabalho. “Trabalhar seria difícil para qualquer cientista que acredita em milagres, em água se transformar em vinho, uma virgem dar à luz ou alguém caminhar sobre a água.”
Quanto ao aumento da aceitação do uso de religiões, astrologias ou “alguma outra besteira” para explicar o mundo, Dawkins disse ter fé que tudo vai mudar a longo prazo. “A ciência daqui a 500 anos vai parecer tão incrível e misteriosa quanto a religião é hoje. É mais ou menos como aviões, carros e computadores pareceriam a aldeões medievais: pura mágica.”
A distância, no entanto, não impede que o cientista sonhe em um mundo em que Deus não será pretexto para o bem e para o mal. “Obviamente espero que consigamos viver sem religião, ela faz muito mal. Não que todos religiosos sejam malévolos, longe disso, mas ela atrapalha e fornece estímulo a se fazer o mal, porque há quem honestamente ache que lutar e matar é válido em nome de Deus. Espero que sim, mas não sou otimista a ponto de esperar ver uma sociedade sem religião enquanto estiver vivo.”
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/flip/2009/07/02/a+ciencia+daqui+a+500+anos+vai+parecer+tao+incrivel+quanto+a+religiao+e+hoje+diz+richard+dawkins+7078034.html
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Domingo, 28 de Junho de 2009
180GRAUS, 30-06-2009
O Piauí pode ser o primeiro no Brasil em que os gestores públicos podem ser obrigados a retirar das repartições públicas os símbolos religiosos. Tramita nesse sentido uma representação junto ao Ministério Público Estadual, assinada por 14 organizações da sociedade civil, dentre elas, Católicas pelo Direito de Decidir, Matizes, Liga Brasileira de Lésbicas.
O Ministério Público Estadual marcou para a próxima terça-feira (30/06), uma audiência pública, para discutir o assunto. O evento acontecerá a partir das 9h, no Auditório do próprio MPE.
Foram convidados os chefes dos poderes públicos estadual e municipal (de Teresina) e representantes da sociedade civil. Segundo o Promotor de Justiça Edilsom Farias, o objetivo dessa Audiência é sensibilizar os gestores públicos a, espontaneamente, retirarem os símbolos religiosos, templos e capelas hoje existentes em órgãos como o DETRAN, a Assembléia, a PM/PI, a Secretaria da Educação, uma vez que o art. 19, I da Constituição Federal veda expressamente essa prática. Caso os gestores insistam em manter os simbolos, o Ministério Pùblico ajuizará uma ação civil pública, pleiteando que o Judiciário determine a retirada.
Para Lúcia Quitéria (da Ong Católicas pelo Direito de Decidir), a intenção das 14 entidades que protocolaram a representação junto ao MPE é tão somente fazer cumprir o texto da Constituição Federal que abraçou o princípio do Estado Laico. "Nossa luta é em defesa do fortalecimento da democracia, da liberdade de crença. Somos 14 entidades, das quais participam católicos, evangélicos, espíritcas, agnósticos e adeptos de religiões de matriz africana. Eu mesma sou católica, mas não acho correto que os órgãos públicos sejam ocupados por símbolos de minha religião, finaliza.
Fonte:
http://180graus.brasilportais.com.br/geral/piaui-podera-ser-obrigado-a-tirar-santos-das-reparticoes-216710.html
PIAUÍ PODERÁ SER OBRIGADO A TIRAR SANTOS DAS REPARTIÇÕES
O Piauí pode ser o primeiro no Brasil em que os gestores públicos podem ser obrigados a retirar das repartições públicas os símbolos religiosos. Tramita nesse sentido uma representação junto ao Ministério Público Estadual, assinada por 14 organizações da sociedade civil, dentre elas, Católicas pelo Direito de Decidir, Matizes, Liga Brasileira de Lésbicas.
O Ministério Público Estadual marcou para a próxima terça-feira (30/06), uma audiência pública, para discutir o assunto. O evento acontecerá a partir das 9h, no Auditório do próprio MPE.
Foram convidados os chefes dos poderes públicos estadual e municipal (de Teresina) e representantes da sociedade civil. Segundo o Promotor de Justiça Edilsom Farias, o objetivo dessa Audiência é sensibilizar os gestores públicos a, espontaneamente, retirarem os símbolos religiosos, templos e capelas hoje existentes em órgãos como o DETRAN, a Assembléia, a PM/PI, a Secretaria da Educação, uma vez que o art. 19, I da Constituição Federal veda expressamente essa prática. Caso os gestores insistam em manter os simbolos, o Ministério Pùblico ajuizará uma ação civil pública, pleiteando que o Judiciário determine a retirada.
Para Lúcia Quitéria (da Ong Católicas pelo Direito de Decidir), a intenção das 14 entidades que protocolaram a representação junto ao MPE é tão somente fazer cumprir o texto da Constituição Federal que abraçou o princípio do Estado Laico. "Nossa luta é em defesa do fortalecimento da democracia, da liberdade de crença. Somos 14 entidades, das quais participam católicos, evangélicos, espíritcas, agnósticos e adeptos de religiões de matriz africana. Eu mesma sou católica, mas não acho correto que os órgãos públicos sejam ocupados por símbolos de minha religião, finaliza.
Fonte:
http://180graus.brasilportais.
O ESTADO DE S. PAULO, 23-06-2009
O que quer que aconteça no Irã como consequência das eleições fraudulentas realizadas no dia 12, há algo bastante claro: não estamos apenas testemunhando uma fascinante disputa pelo poder entre homens que se conhecem intimamente há 30 anos, mas o desenredar de uma ideia religiosa que moldou o crescimento do fundamentalismo islâmico moderno desde a criação da Irmandade Muçulmana em 1928 no Egito.
A Revolução Islâmica no Irã abarcou duas ideias incompatíveis: a lei de Deus - interpretada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini - seria soberana, e o povo do Irã teria o direito de eleger representantes para encampar e proteger seus interesses. Enquanto Khomeini estava vivo e o Irã estava em guerra com o Iraque, a tensão entre teocracia e democracia não se tornou aguda.
Entretanto, após a morte dele, em 1989, a promessa democrática da revolução começou a ganhar terreno. Na campanha presidencial de Mohammad Khatami, em 1997, esta promessa explodiu e paralisou brevemente o sucessor de Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei, e a elite teocrática. A vontade de Deus e os anseios do povo não eram mais compatíveis.
Para assombro de Khamenei, que ainda é líder supremo, Mir Hossein Mousavi - candidato "derrotado" nas eleições arranjadas - tornou-se um novo Khatami, com o diferencial de ser muito mais poderoso do que este. Apesar de não contar com as mesmas credenciais reformistas, Mousavi é um político muito mais duro que Khatami. E as frustrações do mandato fracassado do ex-presidente Khatami cresceram exponencialmente numa nova geração que demonstra menor respeito pelos mulás e pela ideologia revolucionária.
COLAPSO
Ainda assim, nos protestos atuais não estamos testemunhando apenas a conclusão do primeiro estágio do experimento democrático iraniano, mas o colapso dos alicerces estruturais de toda a abordagem islâmica para a soberania política moderna. Tanto para os muçulmanos tradicionais quanto para os fundamentalistas, o imperativo categórico do Islã - inspirar o bem e proibir o mal - está se transformando.
Este imperativo é repetido várias vezes no Alcorão. Historicamente, ele é interpretado como forma de limitar o lado corruptível, rebelde e libidinoso da alma humana. É também o principal motivo teológico pelo qual Khamenei tentará impedir um triunfo democrático no Irã, já que uma verdadeira democracia permitiria que certo e errado fossem determinados pelos homens, e não por Deus e seus fiéis guardiães, os mulás.
Os ocidentais precisam compreender a magnitude do que está se passando na República Islâmica. A revolução do Irã chocou o mundo islâmico. Foi a primeira tentativa dos muçulmanos militantes de provar que "o Islã possui todas as respostas" - ou ao menos um número de respostas suficiente para administrar um Estado moderno.
Mas a experiência fracassou. A chamada revolução de 12 de junho é a resposta iraniana para a esperança de que o mundo possa ser refeito à imagem da comunidade virtuosa do profeta Maomé. Milhões de iranianos disseram nesta eleição não querem participar do sonho de Khamenei, que se transformou num pesadelo.
Não importa o que Khamenei faça, esta mensagem não mudará. O que pode parecer ainda mais surpreendente é o fato de tantos nomes de destaque da primeira geração de revolucionários terem se aliado a Mousavi.
Não sabemos ao certo o que Mousavi pensa da democracia, mas eu apostaria que ele está disposto a conferir ao povo um poder maior do que aquele estipulado por Khatami. E ainda que Mousavi não seja o reformista ideal - foi primeiro-ministro na década de 80 - , ele se encontra cercado pelos melhores e mais brilhantes cérebros que o Irã tem. O regime perdeu praticamente todo o capital intelectual do país. Mesmo entre o clero, os melhores pensadores - aqueles sobre os quais os iranianos fiéis conversam, como o grande aiatolá Hossein Ali Montazeri - distanciaram-se do aiatolá Khamenei.
Até agora, a República Islâmica desfrutou de grande popularidade entre os árabes devotados. Conforme os iranianos conheceram a teocracia em primeira mão, o secularismo tornou-se cada vez mais atraente. O Irã forma atualmente clérigos brilhantes que defendem a separação entre Estado e religião como modo de salvar a fé da corrupção pelo poder.
De fato, os iranianos estão a ponto de transformar a imposição ética do Alcorão num mandamento democrático: nada de bom pode ser inspirado sem o voto do povo.
Os clérigos iraquianos defensores da democracia tentam fazer o mesmo, mas os iranianos, muito avançados no seu pensamento sobre a relação entre religião e Estado, serão certamente mais ousados.
Quer fosse sua intenção ou não, Mousavi provavelmente deu início à contagem regressiva para o fim da República Islâmica.
*Reuel Marc Gerecht é acadêmico da Fundação para a Defesa das Democracias e trabalhou como especialista em Oriente Médio para a CIA, o serviço secreto americano.
Fonte:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090623/not_imp391472,0.php
CRISE EXPÕE FRACASSO DE MODELO ISLÂMICO
O que quer que aconteça no Irã como consequência das eleições fraudulentas realizadas no dia 12, há algo bastante claro: não estamos apenas testemunhando uma fascinante disputa pelo poder entre homens que se conhecem intimamente há 30 anos, mas o desenredar de uma ideia religiosa que moldou o crescimento do fundamentalismo islâmico moderno desde a criação da Irmandade Muçulmana em 1928 no Egito.
A Revolução Islâmica no Irã abarcou duas ideias incompatíveis: a lei de Deus - interpretada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini - seria soberana, e o povo do Irã teria o direito de eleger representantes para encampar e proteger seus interesses. Enquanto Khomeini estava vivo e o Irã estava em guerra com o Iraque, a tensão entre teocracia e democracia não se tornou aguda.
Entretanto, após a morte dele, em 1989, a promessa democrática da revolução começou a ganhar terreno. Na campanha presidencial de Mohammad Khatami, em 1997, esta promessa explodiu e paralisou brevemente o sucessor de Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei, e a elite teocrática. A vontade de Deus e os anseios do povo não eram mais compatíveis.
Para assombro de Khamenei, que ainda é líder supremo, Mir Hossein Mousavi - candidato "derrotado" nas eleições arranjadas - tornou-se um novo Khatami, com o diferencial de ser muito mais poderoso do que este. Apesar de não contar com as mesmas credenciais reformistas, Mousavi é um político muito mais duro que Khatami. E as frustrações do mandato fracassado do ex-presidente Khatami cresceram exponencialmente numa nova geração que demonstra menor respeito pelos mulás e pela ideologia revolucionária.
COLAPSO
Ainda assim, nos protestos atuais não estamos testemunhando apenas a conclusão do primeiro estágio do experimento democrático iraniano, mas o colapso dos alicerces estruturais de toda a abordagem islâmica para a soberania política moderna. Tanto para os muçulmanos tradicionais quanto para os fundamentalistas, o imperativo categórico do Islã - inspirar o bem e proibir o mal - está se transformando.
Este imperativo é repetido várias vezes no Alcorão. Historicamente, ele é interpretado como forma de limitar o lado corruptível, rebelde e libidinoso da alma humana. É também o principal motivo teológico pelo qual Khamenei tentará impedir um triunfo democrático no Irã, já que uma verdadeira democracia permitiria que certo e errado fossem determinados pelos homens, e não por Deus e seus fiéis guardiães, os mulás.
Os ocidentais precisam compreender a magnitude do que está se passando na República Islâmica. A revolução do Irã chocou o mundo islâmico. Foi a primeira tentativa dos muçulmanos militantes de provar que "o Islã possui todas as respostas" - ou ao menos um número de respostas suficiente para administrar um Estado moderno.
Mas a experiência fracassou. A chamada revolução de 12 de junho é a resposta iraniana para a esperança de que o mundo possa ser refeito à imagem da comunidade virtuosa do profeta Maomé. Milhões de iranianos disseram nesta eleição não querem participar do sonho de Khamenei, que se transformou num pesadelo.
Não importa o que Khamenei faça, esta mensagem não mudará. O que pode parecer ainda mais surpreendente é o fato de tantos nomes de destaque da primeira geração de revolucionários terem se aliado a Mousavi.
Não sabemos ao certo o que Mousavi pensa da democracia, mas eu apostaria que ele está disposto a conferir ao povo um poder maior do que aquele estipulado por Khatami. E ainda que Mousavi não seja o reformista ideal - foi primeiro-ministro na década de 80 - , ele se encontra cercado pelos melhores e mais brilhantes cérebros que o Irã tem. O regime perdeu praticamente todo o capital intelectual do país. Mesmo entre o clero, os melhores pensadores - aqueles sobre os quais os iranianos fiéis conversam, como o grande aiatolá Hossein Ali Montazeri - distanciaram-se do aiatolá Khamenei.
Até agora, a República Islâmica desfrutou de grande popularidade entre os árabes devotados. Conforme os iranianos conheceram a teocracia em primeira mão, o secularismo tornou-se cada vez mais atraente. O Irã forma atualmente clérigos brilhantes que defendem a separação entre Estado e religião como modo de salvar a fé da corrupção pelo poder.
De fato, os iranianos estão a ponto de transformar a imposição ética do Alcorão num mandamento democrático: nada de bom pode ser inspirado sem o voto do povo.
Os clérigos iraquianos defensores da democracia tentam fazer o mesmo, mas os iranianos, muito avançados no seu pensamento sobre a relação entre religião e Estado, serão certamente mais ousados.
Quer fosse sua intenção ou não, Mousavi provavelmente deu início à contagem regressiva para o fim da República Islâmica.
*Reuel Marc Gerecht é acadêmico da Fundação para a Defesa das Democracias e trabalhou como especialista em Oriente Médio para a CIA, o serviço secreto americano.
Fonte:
http://www.estadao.com.br/
Terça-feira, 23 de Junho de 2009
Quem nunca ouviu aquela história do fim do mundo em 20/12/2012, baseada no calendário maia?
Pois é, o editor da Ceticismo Aberto, Kentaro Mori, comentou a questão na RedeTV ontem (22/06), vale a pena assistir:
http://www.ceticismoaberto.com/news/?p=1856
Pois é, o editor da Ceticismo Aberto, Kentaro Mori, comentou a questão na RedeTV ontem (22/06), vale a pena assistir:
http://www.ceticismoaberto.com/news/?p=1856
Poema da interrogação
- Domingos da Mota
«Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia
que Ele repousou de toda a obra da criação.»
Génesis
Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;
se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito,
esculpisses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;
(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);
perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?
que Ele repousou de toda a obra da criação.»
Génesis
Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;
se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito,
esculpisses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;
(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);
perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?
Fonte: http://fogomaduro.blogspot.
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
FRASE DO DIA
"PEDI A DEUS UMA BICICLETA, MAS EU SEI QUE ELE NÃO FUNCIONA ASSIM. ENTÃO ROUBEI UMA E PEDI PERDÃO" :)
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
NÃO, VOCÊ NÃO ESTÁ NO CENTRO DO UNIVERSO!
Mais um dos vários vídeos interessantes que podem ser encontrados no youtube.
Sábado, 13 de Junho de 2009
BAD NEWS
Por Daniel Sottomaior
Os nobres religiosos do país conseguiram piorar significativamente o que era péssimo. Como a aprovação da concordata enfrentava resistência, especialmente da bancada evangélica, formou-se um "acordão" para aprovar o acordo em troca da extensão dos mesmos privilégios para todas as religiões. Em outras palavras, o que eles estão fazendo é um grande trem da alegria das religiões, que se tornará realidade através da regulamentação dos artigos 5o e 210 da Constituição Federal.
A pressão da igreja católica conseguiu suprimir a necessidade de parecer de diversas outras comissões, incluindo a Comissão de Constituição e Justiça, que teria o dever de apontar a inconstitucionalidade do projeto. Assim, a proposta seguirá diretamente para votação, e corre ainda o risco de ser aprovada não no plenário, mas por acordo de lideranças. O parecer do relator, dep. Bonifácio Andrada, é um primor de apologia ao jugo da religião sobre o Estado. É claro que esse foi o motivo pelo qual ele foi escolhido para o posto. Só leia se você tiver estômago bem forte.
O único grupo que não será contemplado com essa festival de privilégios é o de indivíduos sem religião, que compõe cerca de 15 milhões de brasileiros. Enquanto isso, a mídia se recusa terminantemente a pautar o assunto. Não por acaso, essa notícia não apareceu em nenhum jornal, em nenhum blog. Os leitores desta coluna recebem a notícia em primeira mão, e podem se preparar para um retrocesso ao século dezenove em termos de laicidade. A Atea se prova mais necessária do que nunca, e irá precisar muito do seu apoio.
Fonte: http://atea.org.br/index.php?option=com_content&view=section&layout=blog&id=27&Itemid=99
Os nobres religiosos do país conseguiram piorar significativamente o que era péssimo. Como a aprovação da concordata enfrentava resistência, especialmente da bancada evangélica, formou-se um "acordão" para aprovar o acordo em troca da extensão dos mesmos privilégios para todas as religiões. Em outras palavras, o que eles estão fazendo é um grande trem da alegria das religiões, que se tornará realidade através da regulamentação dos artigos 5o e 210 da Constituição Federal.
A pressão da igreja católica conseguiu suprimir a necessidade de parecer de diversas outras comissões, incluindo a Comissão de Constituição e Justiça, que teria o dever de apontar a inconstitucionalidade do projeto. Assim, a proposta seguirá diretamente para votação, e corre ainda o risco de ser aprovada não no plenário, mas por acordo de lideranças. O parecer do relator, dep. Bonifácio Andrada, é um primor de apologia ao jugo da religião sobre o Estado. É claro que esse foi o motivo pelo qual ele foi escolhido para o posto. Só leia se você tiver estômago bem forte.
O único grupo que não será contemplado com essa festival de privilégios é o de indivíduos sem religião, que compõe cerca de 15 milhões de brasileiros. Enquanto isso, a mídia se recusa terminantemente a pautar o assunto. Não por acaso, essa notícia não apareceu em nenhum jornal, em nenhum blog. Os leitores desta coluna recebem a notícia em primeira mão, e podem se preparar para um retrocesso ao século dezenove em termos de laicidade. A Atea se prova mais necessária do que nunca, e irá precisar muito do seu apoio.
Fonte: http://atea.org.br/index.php?
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
A verdadeira causa do desastre do vôo 447
TERRA MAGAZINE, 05/06/09
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Estimados milhares de leituras dessa coluna, aqui venho para em alto e bom declarar a todos que foi revelada a causa da tragédia com o vôo 447 da Air France. 15. Isso mesmo. Um simples e falsamente inocente número. 15.
Quem nos dá o privilégio dessa informação é o numerólogo Chris Allmeida, que circulou uma nota na imprensa nessa terça-feira, intitulada o Vôo 447 pela ótica da Numerologia.
Em síntese, vejam aqui o que diz o nosso bravo numerólogo:
Vôo 447 = 4 + 4 + 7 = 15
Na numerologia, 15 é o número do Diabo. Este número carrega consigo uma carga muito forte de energias negativas, agressividade, medo, desvio de caminhos, etc.
Indo além, ele adiciona mais bruxaria ao que já ia tão mal:
Na numerologia caldéia e cabalística, temos:
A=1, I=1, R=2 = 1 + 1 + 2 =4
B=2, U=6, s=3 = 2 + 6 + 3 = 11
AIR + BUS = 4 + 11 = também temos o 15
Como, como, COMO as autoridades aeronáuticas não se deram conta disso? O simples fato de o vôo 447, voado com um Airbus, fazer isso diariamente, saindo do Rio e chegando a Paris com razoável pontualidade e integridade física ao longo de anos fez com que todos, lamentavelmente, relaxassem, deixando de atentar para a incrível coincidências de números 15 por todos as lados.
Quanta incompetência, meu Deus! Como ainda não temos um Ministério da Numerologia para analisar TODOS os eventos cotidianos de todos nós, para prever desastres, impedir maldades, justificar a nossa ausência em reuniões de trabalho! "Sinto muito, caro cliente, mas encontro
justamente às 15 horas, nem pensar!!!"
COMO ninguém se deu conta dessa fatalidade? Como é que ainda temos as 15 horas, todas as tardes? Por que ninguém removeu o dia 15 de cada mês, garantia de perigo e insegurança para todos nós, pobres mortais que seguimos a vida na ignorância de tudo que nos diz a sagrada
ciência da Numerologia? Obrigado, Cchrriss Allmmeidda. Você ajudou a salvar milhares de vidas. Pena que seu aviso tenha chegado tarde, especialmente para os pobres passageiros do vôo 447.
Aliás, por que mesmo você não avisou todos antes de embarcar? Aliás, por que não avisou a Air France para cancelar esse vôo desde sempre? Você não é O cara? Numerologia não é A ciência? Ou será que era melhor aguardar o desastre e a terrível perda de vidas, para então o mundo
finalmente escutar a sua mensagem?
Pois eu tenho uma mensagem para você.
A sua mensagem é uma fraude. Numerologia é uma fraude. Você, nem sei qual era o seu nome original, portanto, prefiro não afirmar nada a seu respeito, a não ser que você fez uma coisa muito feia, de péssimo mau gosto, de lamentável insensibilidade. Ao se proclamar numerólogo, para mim, você era apenas um tolo. Ao emitir essa nota logo após ao acidente, você se mostrou um péssimo e insensível ser humano, aproveitando esse momento tão impossivelmente trágico para promover o seu consultório de nenhuma-ajuda. E acho que eu não fui o único a achar isso. Você sabia que sua assessoria de imprensa se desculpou pela sua nota, ontem mesmo?
Eu, aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros, nesse verdadeiro templo dedicado à Razão, balanço a cabeça desanimado com essa triste obsessão humana, com essa insistência em atribuir à magia tudo que não está exatamente no manual do nosso cotidiano. Numerologia, astrologia, homeopatia, cristalografia, neurolinguistica, cabala, esqueci alguma dessas besteiras?
Você, que me lê, acredita em alguma dessas formas de metafísica para parvos, como disse o Lima Barreto, muito, muito antes de mim? Você acredita em Atlântida, em florais de Bach, na energia misteriosa das pirâmides? Você curte uma boa macumba, vai ao pai de santo, consulta a astróloga que sua amiga disse que é o máximo e lhe disse que sua vida vai enfrentar alguns desatinos e que uma viagem, uma doença na família e um garboso príncipe a aguardam, desde que você saiba evitar o maldito 15 e suas muitas subdivisões?
Você também opta por viver a vida de mágica em mágica, de credulidade em credulidade, pulando de uma a outra enquanto sua vida segue e alguém sério inventa uma nova vacina para algo que mataria você se você insistisse com o homeopata de plantão?
Eu gostaria que todos aproveitassem para fazer o contrário que o tal Chris propõe. Eu gostaria que todos lessem, ou espiassem ao menos, livros como "O mundo assolado pelos demônios", do Carl Sagan, que pede aos homens e mulheres que parem de seguir essas tolices e se voltem
para a beleza da ciência. Que todos leiam o lindo "Uma breve história de quase tudo", do Bill Brysson, que nos chama para nos encantarmos com a mágica do que realmente existe e nos cerca, em vez de perdermos tempo com bobagens repetidas ao longo de milênios, e que não nos
ajudaram a avançar um milímetro.
Vocês precisam pensar que, há apenas 100 anos, pouco mais, uma mulher em três morria no parto. Que a vida média era 37 anos, na Europa. Que quase todo mundo morria de choque, uma simples apendicite era mortal. Tuberculose também era. Lembram da varíola, poliomielite? Se morria de tudo, rezando pra qualquer coisa, numerando e astrologando ou não, nada fazia a menor diferença.
Isso somente mudou quando começamos a pensar pra valer e paramos de atribuir tudo aos deuses ou aos duendes. Criamos remédios que funcionam independentemente do que eu pense sobre eles, criamos vacinas, inventamos a anestesia. Nada disso foi invenção de tarólogo, posso
assegurar a vocês. Inventamos a vida moderna e nela vivemos, mas infelizmente a bruxaria veio junto. Precisamos nos livrar dela, pensando no que realmente acontece.
E o que realmente derrubou o vôo 477 foi o fato de que ele era um avião, que aviões infelizmente caem, sempre irão cair, uns poucos, enquanto a vasta maioria, numa celebração da inteligência humana, chegam aos seus destinos, depois de terem decolado, subido até 10 km de altura e -50 graus, viajado a mais de 800 km por hora, deixando-nos sãos e salvos, apenas mal-alimentados, para podermos trabalhar, conhecer lugares que jamais conheceríamos, encontrar pessoas amadas, viver a vida em sua plenitude.
Isso, contém riscos que numerologia nenhuma explica ou evita, porque, como qualquer tolice, ela fica infinitamente aquém da vida.
Raios caem sobre a gente, automóveis infelizmente colidem com caminhões, navios afundam, e todas as criações contém erros ou riscos, e assim é a vida, complexa demais para ser descrita ou controlada. Vivemos graças a essas maravilhosas coisas que criamos, e devemos aceitar a idéia de que, vez por vez, algo saia errado, ao mesmo tempo em que lutamos e usamos nossa inteligência para que cada vez menos coisas saiam errado.
Vamos chorar os passageiros do vôo que terminou tão tristemente, vamos aprender e melhorar os aviões, mais do que simplesmente duplicar as consoantes nos nomes deles.
Vamos, porque ir é a nossa natureza. Vamos em frente, mostrar do que somos capazes. Vamos, porque sim.
Fonte: http://terramagazine.terra.
Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
DN PORTUGAL 08-06-2009
Aos 38 anos, Ricardo Silvestre iniciou o processo para deixar de ser baptizado e de fazer parte da Igreja Católica. O patriarcado diz que, por ano, há cerca de seis pedidos destes em Portugal
Ricardo Silvestre tinha um ano quando foi baptizado e 13 anos quando percebeu " que não queria ter nada a ver com o Deus vingativo da Bíblia". Mas só este ano, aos 38, resolveu formalizar a separação e "anular" o seu baptismo. O processo é simples, mas, segundo adiantou ao DN o Patriarcado de Lisboa, são poucos os pedidos de cisão, não ultrapassando os seis por ano.
"Fui até à igreja de Alcabideche, onde fui baptizado quando tinha um ano, entreguei a carta ao padre e pedi a opinião dele. Primeiro ficou estupefacto, depois revelou incompreensão e finalmente enfado, uma irritação cordial", conta o técnico superior de desporto.
Ricardo fez tudo como mandam as regras e até resolveu descrever o seu processo de apostasia (separação com a igreja) num site (ver caixa) para servir de exemplo. Com resultados. "Nos últimos dias já quatro pessoas me disseram que iniciaram o processo", conta.
O primeiro passo foi pesquisar os documentos do Vaticano que explicam a apostasia e o chamado actus defectionis (acto de ruptura). Depois escreveu a carta que entregou na paróquia onde foi baptizado. A missiva também pode ser enviada para a respectiva diocese, indicando data e local do baptismo, mas a Igreja só avança se conseguir confirmar que o pedido é da própria pessoa, explica o cónego Manuel Lourenço, que trata destes processos no Patriarcado de Lisboa: "Ou a pessoa vem ela própria ou envia uma assinatura reconhecida."
O cónego diz que à diocese de Lisboa chegam poucos pedidos destes. "De Portugal apenas uns cinco ou seis por ano. Da Alemanha temos cerca de 10 em mãos, por causa dos impostos", conta. Isto porque naquele país a filiação numa Igreja implica o pagamento de um imposto que o Estado desconta e depois passa à respectiva organização. Como em Portugal não há implicações deste tipo, as pessoas não se dão ao trabalho de formalizar a saída, explica. As que o fazem, não dizem porquê. "Há pouco tempo recebemos uma carta em que a pessoa explicava que se tinha convertido ao budismo, mas a maior parte não diz nada. Pode ter a ver com a entrada em outras organizações, como a maçonaria", explica o sacerdote.
Ricardo Silvestre resolveu fazê-lo porque é um "ateu militante" - uma dedicação que surgiu depois de assistir a uma conferência sobre a teoria do "desenho inteligente".
"Achei que era um elogio à ignorância. Tudo o que não entendo explico com a intervenção de Deus", conta. Por outro lado, "não queria continuar a fazer parte dos 80% da população portuguesa que a a igreja diz representar". Sobretudo porque "a Igreja tem posições desagradáveis e tenta influenciar a opinião pública e os políticos", diz. Para os crentes, o baptismo nunca pode ser anulado já que é um selo divino. Por isso é que "as crianças só devem ser baptizadas quando existe esperança de que sejam educadas na fé cristã", explica o cónego Manuel Lourenço.
Mas Ricardo não é crente e por isso aguarda que a qualquer momento chegue à sua mão um averbamento (aprovado pelo patriarcado) no seu registo de baptismo a confirmar que já não faz parte da Igreja, acrescentando a frase em latim Defectio ab Ecclesia catholica actu formali.
Fonte:
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1256540
ATEU PEDE ANULAÇÃO DO BATISMO REALIZADO EM BEBÉ
Aos 38 anos, Ricardo Silvestre iniciou o processo para deixar de ser baptizado e de fazer parte da Igreja Católica. O patriarcado diz que, por ano, há cerca de seis pedidos destes em Portugal
Ricardo Silvestre tinha um ano quando foi baptizado e 13 anos quando percebeu " que não queria ter nada a ver com o Deus vingativo da Bíblia". Mas só este ano, aos 38, resolveu formalizar a separação e "anular" o seu baptismo. O processo é simples, mas, segundo adiantou ao DN o Patriarcado de Lisboa, são poucos os pedidos de cisão, não ultrapassando os seis por ano.
"Fui até à igreja de Alcabideche, onde fui baptizado quando tinha um ano, entreguei a carta ao padre e pedi a opinião dele. Primeiro ficou estupefacto, depois revelou incompreensão e finalmente enfado, uma irritação cordial", conta o técnico superior de desporto.
Ricardo fez tudo como mandam as regras e até resolveu descrever o seu processo de apostasia (separação com a igreja) num site (ver caixa) para servir de exemplo. Com resultados. "Nos últimos dias já quatro pessoas me disseram que iniciaram o processo", conta.
O primeiro passo foi pesquisar os documentos do Vaticano que explicam a apostasia e o chamado actus defectionis (acto de ruptura). Depois escreveu a carta que entregou na paróquia onde foi baptizado. A missiva também pode ser enviada para a respectiva diocese, indicando data e local do baptismo, mas a Igreja só avança se conseguir confirmar que o pedido é da própria pessoa, explica o cónego Manuel Lourenço, que trata destes processos no Patriarcado de Lisboa: "Ou a pessoa vem ela própria ou envia uma assinatura reconhecida."
O cónego diz que à diocese de Lisboa chegam poucos pedidos destes. "De Portugal apenas uns cinco ou seis por ano. Da Alemanha temos cerca de 10 em mãos, por causa dos impostos", conta. Isto porque naquele país a filiação numa Igreja implica o pagamento de um imposto que o Estado desconta e depois passa à respectiva organização. Como em Portugal não há implicações deste tipo, as pessoas não se dão ao trabalho de formalizar a saída, explica. As que o fazem, não dizem porquê. "Há pouco tempo recebemos uma carta em que a pessoa explicava que se tinha convertido ao budismo, mas a maior parte não diz nada. Pode ter a ver com a entrada em outras organizações, como a maçonaria", explica o sacerdote.
Ricardo Silvestre resolveu fazê-lo porque é um "ateu militante" - uma dedicação que surgiu depois de assistir a uma conferência sobre a teoria do "desenho inteligente".
"Achei que era um elogio à ignorância. Tudo o que não entendo explico com a intervenção de Deus", conta. Por outro lado, "não queria continuar a fazer parte dos 80% da população portuguesa que a a igreja diz representar". Sobretudo porque "a Igreja tem posições desagradáveis e tenta influenciar a opinião pública e os políticos", diz. Para os crentes, o baptismo nunca pode ser anulado já que é um selo divino. Por isso é que "as crianças só devem ser baptizadas quando existe esperança de que sejam educadas na fé cristã", explica o cónego Manuel Lourenço.
Mas Ricardo não é crente e por isso aguarda que a qualquer momento chegue à sua mão um averbamento (aprovado pelo patriarcado) no seu registo de baptismo a confirmar que já não faz parte da Igreja, acrescentando a frase em latim Defectio ab Ecclesia catholica actu formali.
Fonte:
http://dn.sapo.pt/inicio/
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
O OUTRO DARWIN
Livro aponta compaixão abolicionista como fonte da teoria da evolução por seleção natural
________________________________
MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA
Os 200 anos de nascimento de Charles Darwin forneceram ocasião para um frenesi editorial. Celebrou-se a efeméride sobre o único grande pensador do século 19 a atravessar o 20 incólume, ou bem adaptado, com dezenas de livros. Darwin foi exumado, de novo, para demonstrar o excelente estado de conservação do mito do cientista guiado apenas pelas luzes da razão e dos
fatos.
Eis o homem cujo pensamento pôs a religião de joelhos. Aquele que expulsou os vendilhões de valores do templo do conhecimento objetivo. O profeta barbudo da teoria que tudo explicou e tudo explicará, muito além de Marx e Freud.
Felizmente há historiadores na praça, como Adrian Desmond e James Moore. Autora de uma já celebrada biografia de Darwin ("A Vida de um Naturalista Atormentado", 1994), a dupla produziu aquele que poderá permanecer como o livro mais importante da safra de 2009, "A Causa Secreta de Darwin". Uma tijolada de 485 páginas na vitrina de cientificismo em que se converteu boa parte da divulgação científica.
Leitura obrigatória, em especial para brasileiros. Desmond e Moore (D&M) põem no meio do salão vitoriano o preto que muitos nacionais ainda relutam em admitir no sofá da casa grande. A obra fundamenta a tese de que a senzala brasileira, afinal, pode ter sido tão importante para a teoria da evolução quanto as ilhas Galápagos. Na origem de tudo, a escravidão. Os primeiros capítulos de D&M trazem uma detalhada reconstituição da militância abolicionista das famílias Darwin e Wedgwood, nas quais Charles cresceu e se casou (com a prima-irmã Emma). O tio Josiah Wedgwood, responsável por convencer Robert Darwin a permitir o embarque do filho no
navio Beagle, candidatou-se ao Parlamento só para defender a causa. Da fábrica de porcelanas Wedgwood saíra, já em 1787, por obra do avô de Darwin, um medalhão cuja venda angariava fundos para a abolição do tráfico de escravos. Trazia a inscrição "Não sou eu um homem e um irmão?" sobre a figura de um negro de joelhos, com as mãos acorrentadas. É a ilustração
ideal do fulcro da tese de D&M: todo o pensamento de Darwin gira em torno da unidade da espécie humana, irmanada por um ancestral comum. Esta convicção moral, para os autores, foi a matriz de "A Origem das Espécies". Dela brotou a ideia de diversificação a partir do tronco único da Árvore da Vida. Era também a questão que galvanizava o debate entre abolicionistas, defensores da espécie humana única, e escravistas, adeptos da noção de espécies separadas.
Esse debate foi travado nas trincheiras da ciência. Uma lista impressionante de nomes nele se engajou. Darwin não raro estava no centro da controvérsia, conspirando ou altercando com boa parte deles: Charles Lyell, Alfred R. Wallace, Louis Agassiz, Thomas Huxley, Ernst Haeckel, Arthur de Gobineau, e por aí vai.
D&M compõem um panorama fascinante da cultura do século 19 anglo-saxão no momento em que se produzia o cisma entre antropologia física e cultural. Darwin participou com vigor, movido por uma indignação trazida do berço, mas reforçada com a experiência direta da crueldade da escravidão no Brasil. Na velhice, ainda se lembrava com desgosto dos gritos de um negro seviciado em Pernambuco e da separação de pais e filhos para a venda no mercado do Rio de
Janeiro.
Valores
A tese central do livro já seria suficiente para adicionar um grão de sal ao credo ainda tão em voga de que não há lugar para valores na ciência natural. Calhou de Darwin estar certo, mas não por ter se orientado exclusivamente pela bússola das evidências naturais. Pintá-lo como o campeão da razão objetiva em combate contra a superstição religiosa resulta numa falsificação
grosseira. O materialismo naturalista era seu método, não sua crença.
D&M vão além. Darwin seria movido não só por uma convicção abstrata, mas também por um sentimento mais visceral: compaixão. Esta subtese, pouco desenvolvida no livro, sugere que Darwin, mais até do que animalizar o homem, estendeu as raízes do humano em direção aos animais. De um lado, Darwin buscou nas emoções baixas dos primatas, e mais atrás, as
origens das elevadas faculdades humanas. De outro, explicou a existência de raças na espécie humana -talvez a sua maior dificuldade- como produto de instintos inferiores, pelo mecanismo da seleção sexual. Nada de essencial nos separaria das bestas.
"Dois assuntos que comoviam meu pai talvez mais profundamente do que quaisquer outros eram a crueldade com animais e a escravidão -sua ojeriza por ambos era intensa, e sua indignação era avassaladora em caso de qualquer leviandade ou falta de sentimento nessas matérias", testemunhou o filho William em 1883, como destacam D&M no capítulo final de "A Causa Secreta".
O biocientista pós-moderno, avesso a todo "sentimentalismo" e interferência de valores "ideológicos" na pesquisa, terá alguma dificuldade de reconciliar esse outro Darwin com seu mais celebrado herói.
----------------------------------------
O LIVRO: "Darwin's Sacred Cause. How a Hatred of Slavery Shaped Darwin's Views on Human Evolution" ("A Causa Secreta de Darwin. Como o Ódio àEscravidão Conformou a Visão de Darwin sobre a Evolução Humana") Adrian Desmond e James Moore. Houghton, Mifflin Harcourt, 485 págs., US$ 30,00.
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Resenha publicada no jornal FSP, página de ciência, 17/05/2009
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MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA
Os 200 anos de nascimento de Charles Darwin forneceram ocasião para um frenesi editorial. Celebrou-se a efeméride sobre o único grande pensador do século 19 a atravessar o 20 incólume, ou bem adaptado, com dezenas de livros. Darwin foi exumado, de novo, para demonstrar o excelente estado de conservação do mito do cientista guiado apenas pelas luzes da razão e dos
fatos.
Eis o homem cujo pensamento pôs a religião de joelhos. Aquele que expulsou os vendilhões de valores do templo do conhecimento objetivo. O profeta barbudo da teoria que tudo explicou e tudo explicará, muito além de Marx e Freud.
Felizmente há historiadores na praça, como Adrian Desmond e James Moore. Autora de uma já celebrada biografia de Darwin ("A Vida de um Naturalista Atormentado", 1994), a dupla produziu aquele que poderá permanecer como o livro mais importante da safra de 2009, "A Causa Secreta de Darwin". Uma tijolada de 485 páginas na vitrina de cientificismo em que se converteu boa parte da divulgação científica.
Leitura obrigatória, em especial para brasileiros. Desmond e Moore (D&M) põem no meio do salão vitoriano o preto que muitos nacionais ainda relutam em admitir no sofá da casa grande. A obra fundamenta a tese de que a senzala brasileira, afinal, pode ter sido tão importante para a teoria da evolução quanto as ilhas Galápagos. Na origem de tudo, a escravidão. Os primeiros capítulos de D&M trazem uma detalhada reconstituição da militância abolicionista das famílias Darwin e Wedgwood, nas quais Charles cresceu e se casou (com a prima-irmã Emma). O tio Josiah Wedgwood, responsável por convencer Robert Darwin a permitir o embarque do filho no
navio Beagle, candidatou-se ao Parlamento só para defender a causa. Da fábrica de porcelanas Wedgwood saíra, já em 1787, por obra do avô de Darwin, um medalhão cuja venda angariava fundos para a abolição do tráfico de escravos. Trazia a inscrição "Não sou eu um homem e um irmão?" sobre a figura de um negro de joelhos, com as mãos acorrentadas. É a ilustração
ideal do fulcro da tese de D&M: todo o pensamento de Darwin gira em torno da unidade da espécie humana, irmanada por um ancestral comum. Esta convicção moral, para os autores, foi a matriz de "A Origem das Espécies". Dela brotou a ideia de diversificação a partir do tronco único da Árvore da Vida. Era também a questão que galvanizava o debate entre abolicionistas, defensores da espécie humana única, e escravistas, adeptos da noção de espécies separadas.
Esse debate foi travado nas trincheiras da ciência. Uma lista impressionante de nomes nele se engajou. Darwin não raro estava no centro da controvérsia, conspirando ou altercando com boa parte deles: Charles Lyell, Alfred R. Wallace, Louis Agassiz, Thomas Huxley, Ernst Haeckel, Arthur de Gobineau, e por aí vai.
D&M compõem um panorama fascinante da cultura do século 19 anglo-saxão no momento em que se produzia o cisma entre antropologia física e cultural. Darwin participou com vigor, movido por uma indignação trazida do berço, mas reforçada com a experiência direta da crueldade da escravidão no Brasil. Na velhice, ainda se lembrava com desgosto dos gritos de um negro seviciado em Pernambuco e da separação de pais e filhos para a venda no mercado do Rio de
Janeiro.
Valores
A tese central do livro já seria suficiente para adicionar um grão de sal ao credo ainda tão em voga de que não há lugar para valores na ciência natural. Calhou de Darwin estar certo, mas não por ter se orientado exclusivamente pela bússola das evidências naturais. Pintá-lo como o campeão da razão objetiva em combate contra a superstição religiosa resulta numa falsificação
grosseira. O materialismo naturalista era seu método, não sua crença.
D&M vão além. Darwin seria movido não só por uma convicção abstrata, mas também por um sentimento mais visceral: compaixão. Esta subtese, pouco desenvolvida no livro, sugere que Darwin, mais até do que animalizar o homem, estendeu as raízes do humano em direção aos animais. De um lado, Darwin buscou nas emoções baixas dos primatas, e mais atrás, as
origens das elevadas faculdades humanas. De outro, explicou a existência de raças na espécie humana -talvez a sua maior dificuldade- como produto de instintos inferiores, pelo mecanismo da seleção sexual. Nada de essencial nos separaria das bestas.
"Dois assuntos que comoviam meu pai talvez mais profundamente do que quaisquer outros eram a crueldade com animais e a escravidão -sua ojeriza por ambos era intensa, e sua indignação era avassaladora em caso de qualquer leviandade ou falta de sentimento nessas matérias", testemunhou o filho William em 1883, como destacam D&M no capítulo final de "A Causa Secreta".
O biocientista pós-moderno, avesso a todo "sentimentalismo" e interferência de valores "ideológicos" na pesquisa, terá alguma dificuldade de reconciliar esse outro Darwin com seu mais celebrado herói.
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O LIVRO: "Darwin's Sacred Cause. How a Hatred of Slavery Shaped Darwin's Views on Human Evolution" ("A Causa Secreta de Darwin. Como o Ódio àEscravidão Conformou a Visão de Darwin sobre a Evolução Humana") Adrian Desmond e James Moore. Houghton, Mifflin Harcourt, 485 págs., US$ 30,00.
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Resenha publicada no jornal FSP, página de ciência, 17/05/2009
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
Antiguinho...mas interessante!
Cientologia é julgada por fraude e pode ser banida da França
25 de maio de 2009 • 08h49 • atualizado às 13h19
Daniela Fernandes
Da BBC Brasil
Começa nesta segunda-feira em Paris o julgamento da Igreja da Cientologia, acusada de estelionato e formação de quadrilha. Sete de seus membros também serão julgados por exercício ilegal de atividades farmacêuticas.
No centro do caso estão acusações feitas por uma mulher que diz ter sido pressionada a pagar grandes somas de dinheiro por um teste de personalidade oferecido gratuitamente.
A organização é vista pelas autoridades francesas como seita. No caso de uma condenação, a cientologia corre o risco de ser banida do país.
Esta é a primeira vez que duas pessoas jurídicas, a associação espiritual da Igreja da Cientologia Celebrity Centre, a principal estrutura da organização, situada em Paris, e também a sociedade
anônima SEL, livraria que pertence à cientologia, integram o banco dos réus. Até o momento, apenas alguns de seus membros haviam sido processados pela Justiça.
Electrômetro
A seita é suspeita de obrigar seus adeptos a comprar apostilhas, livros, vitaminas e equipamentos como o "electrômetro", que custa 5 mil euros (cerca de R$ 14 mil), apresentado como "um instrumento importante para os cursos".
Segundo o juiz que instruiu o processo, o "electrômetro" só visa "dar uma aparência científica aos testes". Já as vitaminas, diz o juiz, têm efeitos nocivos e teriam o objetivo de "deixar as pessoas em um estado de cansaço profundo, que levam a uma exclusão progressiva do círculo
social".
O advogado das vítimas que se dizem lesadas financeiramente pela organização, Olivier Morice, afirma que a Cientologia é "uma grande empresa destinada a fraudar as pessoas para dilapidar suas fortunas".
Ele estima que o julgamento que começa nesta segunda-feira em Paris "é o resultado de uma longa queda de braço entre a Justiça e a cientologia".
"Houve um julgamento importante em Lyon, em 1997, e pessoas foram condenadas. Os métodos da Cientologia que os juízes vão julgar são os mesmos praticados há 12 anos. Mas agora a Justiça poderá condenar a organização e não apenas subalternos do grupo", afirma o advogado.
Duas pessoas que entraram na Justiça contra a organização serãoouvidas pelo tribunal, ao lado da Ordem dos Farmacêuticos da França.
A seita contesta as acusações contra a organização e seus discípulos, e diz que se trata de uma campanha para denegrir sua imagem.
Segundo o porta-voz da cientologia na França, as agências de vigilância de seitas Miviludes (governamental) e Unadfi "orquestraram uma campanha para pressionar os juízes".
"Não se trata de definir se a cientologia é uma religião ou não. Os debates devem se restringir às acusações de fraude, que eu contesto", diz o advogado da cientologia, Patrick Maisonneuve.
As audiências para ouvir as vítimas e os acusados vão durar 11 dias. O julgamento deve terminar apenas em 17 de junho.
Fonte: http://noticias.terra.com.br/
Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Atheist Experience: Deus é imoral
PARTE 1
PARTE 2
PARTE 2
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The Atheist Experience: pergunte e responderemos
Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
PAPA CRITICA USO DE PRESERVATIVOS
ULTIMOSEGUNDO, 18-03-2009
O Papa Bento 16 tem todo direito de expressar sua oposição ao uso da camisinha com base em princípios morais, de acordo com a posição oficial da Igreja Católica Romana. Mas ele não merece crédito quando distorce descobertas científicas sobre o valor dos preservativos em diminuir a disseminação do vírus da Aids.
Como relatado por jornalistas que acompanharam o Papa em seu voo à África, Bento disse que a distribuição de camisinhas não resolveria o problema da Aids mas, pelo contrário, o agravaria ou pioraria.
A primeira metade de sua declaração é claramente correta. As camisinha por si mesmas não têm como parar a disseminação do vírus HIV, o causador da Aids. Campanhas para reduzir o número de parceiros sexuais, adotar práticas de sexo seguro e outros programas são necessários para que a doença seja controlada.
Mas a segunda metade de sua declaração é absolutamente incorreta. Não há evidência de que o uso de camisinha esteja agravando a epidemia, mas sim que o preservativo pode ser útil em muitas circunstâncias.
Do ponto de vista de um indivíduo, as camisinhas funcionam bem ao prevenir a transmissão do vírus da Aids de pessoas infectadas para outras não infectadas. O Centro para o Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos cita evidência "amplas e conclusivas" de que o preservativo de latex, quando usado de forma consistente e correta, é "altamente eficiente" na prevenção heterossexual do contágio pelo vírus causador da Aids. A análise mais recente dos melhores estudos sobre o assunto, publicada pela Cochrane Collaboration, concluiu que as camisinhas podem reduzir a transmissão do vírus da Aids em até 80%.
No entanto, ambos os grupos alertaram que os preservativos não podem oferecer proteção total. As camisinhas rompem, escorregam ou são utilizadas de maneira incorreta. A melhor forma de evitar a transmissão do vírus da Aids é a abstinência sexual ou a manutenção de um relacionamento monógamo de longa duração com uma pessoa não contaminada.
De uma perspectiva nacional, a promoção da camisinha foi eficiente em desacelerar a epidemia em diversos países entre os grupos de risco, como garotas de programa e seus clientes, mas menos eficiente em diminuir epidemias que se espalharam entre a população geral, como em grande parte da África. Isso acontece provavelmente porque muitas pessoas usam o preservativo de maneira incorreta e sem consistência.
Mesmo assim, autoridades sanitárias consideram a camisinha um componente de valor em qualquer programa de prevenção contra a Aids. Parece irresponsável culpar as camisinhas por piorarem a disseminação da doença.
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/new_york_times/2009/03/18/editorial+papa+critica+uso+de+preservativos+no+combate+a+aids+4876970.html
Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
AS RELIGIÕES ESTÃO MORTAS
REVISTA DA SEMANA, 09-03-2009
As igrejas só sobrevivem porque suas hierarquias querem poder e privilégios
Gianni Vattimo*,
para El País
Todos recordamos a famosa frase de Nietzsche sobre a morte de Deus. E também sua cláusula: Deus seguirá projetando sua sombra em nosso mundo durante muito tempo. E se aplicássemos a frase do filósofo alemão também às religiões? Em grande parte do mundo contemporâneo a religião está morta, mas ainda projeta sombras em vários aspectos da vida privada e coletiva.
As religiões estão mortas porque não garantem mais a ordem racional do mundo. Dentro da sociedade cristã e católica da Europa é fácil ver que são muito poucos os que observam os mandamentos da moral cristã oficial. A institucionalização das crenças, que deu origem às igrejas, incluiu uma reivindicação do poder histórico no sentido de que era quase natural que uma religião moral se convertesse em uma instituição poderosa. É o que parece ter ocorrido com o catolicismo, mas pode-se ver fenômenos similares na história de outras religiões. Por exemplo, no hinduísmo, o mesmo fato de que existe uma diferença entre clérigos e leigos faz com que a religião se converta em uma instituição cujo objetivo principal é sempre sua sobrevivência.
Como no caso da morte de Deus de Nietzsche, a morte das religiões institucionalizadas não significa que não tenham legitimidade. Chega um momento em que simplesmente elas já não são necessárias. E esse momento é nossa época porque as religiões já não contribuem para uma existência humana pacífica nem representam um meio de salvação. A religião é um poderoso fator de conflito em momentos de mudança intensa entre mundos culturais diferentes. É o que ocorre atualmente. Na Itália, por exemplo, existe um problema com a construção de mesquitas porque a população muçulmana aumentou de forma espetacular. A hegemonia tradicional da igreja católica está em perigo, mas os católicos não se sentem ameaçados por essa situação – apenas o papa e os bispos.
A igreja afirma que defende seu poder (e os aspectos econômicos dele) para preservar sua capacidade de pregar o Evangelho. Como em tantas instituições, a razão suprema de sua existência cai para segundo plano em troca da continuidade do status quo. Enquanto as religiões continuarem desejando ser instituições poderosas serão um obstáculo para a paz e o desenvolvimento de uma atitude genuinamente religiosa: basta pensar em quanta gente abandonou a igreja católica pelo escândalo que representam as pretensões do papa de imiscuir-se nas leis civis italianas. Nos Estados Unidos o anúncio do presidente Obama sobre sua intenção de eliminar as restrições ao aborto provocou ampla oposição por parte dos bispos católicos. A oposição contra qualquer forma de liberdade de escolha relacionada à família, sexualidade e bioética é contínua e intensa, sobretudo em países como Itália e Espanha. A igreja se opõe a leis que não obrigam, só permitem, a decisão pessoal nesses assuntos. De que lado está a civilização?
Recentemente o papa repetiu sua ideia de que a verdade não é negociável. Esse "fundamentalismo" é característica do catolicismo ou de todo o cristianismo? Quem fala de civilizações tem a responsabilidade de levar em conta essa condição. Enquanto não for eliminado o aspecto autoritário e de poder das religiões, será impossível avançar até o mútuo entendimento entre as diversas culturas do mundo. A compaixão parece ser a base fundamental de toda experiência religiosa. É esse o ponto de vista do cristianismo, budismo, hinduísmo, judaísmo e também do Islã. Mas é precisamente por isso que devemos reconhecer que chegou a hora de as pessoas religiosas se voltarem contra as religiões. E afirmarem que a era da religião-instituição acabou e sua sobrevivência só se deve aos esforços das hierarquias religiosas para conservar seu poder e seus privilégios.
*Gianni Vattimo é filósofo e político italiano
Fonte: http://revistadasemana.abril.com.br/edicoes/78/contraamare/materia_contraamare_426522.shtml
"HÁ EM PORTUGAL GRAVES ATROPELOS À LAICIDADE"
AO ONLINE, 14-04-2009
Dois dias após a celebração da mais importante data para os Cristãos, sobre a qual se ouviram muitos párocos e entidades religiosas, o Açoriano Oriental decidiu ouvir Carlos Esperança que representa o outro lado da medalha.
Para tal, esteve à conversa com Carlos Esperança, presidente da Associação Ateísta Portuguesa (AAP), a primeira associação de ateístas, agnósticos e descrentes portugueses, criada em Maio do ano passado.
Quando foi criada a AAP e o que motivou a sua criação?
A AAP constituiu-se em associação num cartório notarial de Lisboa, em 30 de Maio de 2008, após alguns anos de convívio e discussão intelectual entre ateus, no sítio ateismo.net, e depois de quase cinco anos de publicação ininterrupta do Diário Ateísta. A necessidade de defender a laicidade do Estado foi provavelmente o motivo principal que nos impeliu para a criação da AAP.
Qual é o principal objectivo da AAP?
Não há um objectivo único. Há vários, que não me permito hierarquizar: fazer conhecer o ateísmo como mundividência ética, filosófica e socialmente válida; representar os legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião no exercício da cidadania democrática; promover e defender a laicidade do Estado e a igualdade de todos os cidadãos, independentemente da sua crença ou ausência de crença no sobrenatural; despreconceitualizar o ateísmo na legislação e nos órgãos de comunicação social; responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.
Considera que persiste na sociedade portuguesa uma certa "diabolização" do cidadão ateu e do cidadão agnóstico?
Existe em Portugal um proselitismo mitigado por uma sociedade cada vez mais secularizada e descrente. Os interesses económicos das religiões, em Portugal especialmente os ligados à Igreja Católica, estão na origem do azedume que o ateísmo provoca. As igrejas estão mais interessadas na conquista dos mercados da educação, saúde e assistência, que movimentam verbas astronómicas, do que na divulgação do alegado martírio do seu deus.
Na sua opinião, Portugal é, na prática, um Estado Laico? Há uma efectiva separação entre o laico e o religioso na política, na educação, etc.?
Há em Portugal atropelos graves à laicidade do Estado, como se pode ver com a participação dos mais altos dignitários do Estado, nomeadamente o Presidente da República e o presidente da Assembleia da República (natural dos Açores, por acaso) nas cerimónias da canonização de Nuno Álvares Pereira, distinção atribuída pela Igreja Católica ao herói medieval por ter curado o olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus com óleo de fritar peixe.
A AAP denunciou a manobra obscurantista e apelou, em comunicado, ao espírito crítico dos portugueses para que não creiam em afirmações infundadas ou, pelo menos, façam a distinção entre as crenças pessoais e o reconhecimento estatal da superstição.
A existência desnecessária de uma Concordata é prejudicial à liberdade religiosa, que deve ser garantida, de igual modo, a crentes, descrentes e anticrentes. A existência de capelães militares, hospitalares e prisionais é igualmente um dos muitos privilégios injustos da poderosa Igreja Católica.
Há alguma delegação da AAP nos Açores, ou há intenções de virem a criá-la?
Só há uma "sede" em Lisboa e jamais haverá qualquer delegação onde quer que seja. Os ateus não são prosélitos e até hoje nunca pedimos a quem quer que fosse para se tornar sócio da AAP. Nem pediremos. Nem apareceremos em casa das pessoas a dar a boa nova: "Deus provavelmente não existe..."
No seu entender, qual é a importância actual da religião na sociedade? A religião está em declínio? Se sim, qual acha que é o motivo?
A religião vive da tradição, dos hábitos e dos medos das pessoas. Nos períodos de crise os crentes religiosos aumentam, tal como os clientes dos bruxos, quiromantes e de outros ofícios correlativos. E há solenidades que levam muitas pessoas a aproximarem-se da Igreja.
Acontece com o baptismo, o casamento e o funeral - os ritos. A sociedade ainda não se organizou para prescindir da presença do clero em algumas situações.
Fonte: http://www.acorianooriental.pt/noticias/view/183115
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